A internet ainda é feita para pessoas? O impacto dos robôs e algoritmos na nossa capacidade crítica.
- Produzido por Joaquim Fantin. Revisado por Adriana Roma.
Você já teve a sensação de que o conteúdo das redes sociais está cada vez mais repetitivo, genérico e sem alma? Há razões concretas para essa percepção. Estudos sobre tráfego na internet indicam que robôs e automações já representam mais da metade de toda atividade online. Eles navegam, extraem dados e interagem em uma velocidade muito superior à dos seres humanos.
E essa presença não se limita aos robôs que rastreiam páginas, analisam dados ou publicam comentários automaticamente. Há também os algoritmos das redes sociais, conjuntos de regras e critérios usados pelas plataformas para selecionar e organizar o conteúdo que aparece para cada usuário. Na prática, esses sistemas influenciam o que ganha mais ou menos visibilidade. Conteúdos capazes de gerar reações rápidas tendem a disputar nossa atenção com análises que exigem mais tempo, contexto e reflexão.
O avanço tecnológico intensifica esse cenário ao operar em duas frentes distintas que se complementam. Numa ponta, a Inteligência Artificial generativa inunda as redes com textos, imagens e vídeos criados inteiramente por máquinas. Na outra ponta, a automação atua na manipulação do engajamento como é o caso das “fazendas de cliques por robôs”, onde centenas de smartphones alinhados em prateleiras operam ininterruptamente para inflacionar visualizações e seguidores. O resultado é um ambiente em que nem sempre sabemos se um conteúdo foi produzido por uma pessoa ou se as reações a ele são autênticas. Aos poucos, fica mais difícil distinguir interesse real de atividade gerada artificialmente.
Essa dinâmica traz impactos diretos para a sociedade, afetando a qualidade da comunicação e a nossa própria capacidade de concentração e análise crítica. Como aponta o escritor Sérgio Rodrigues, a arquitetura atual das redes nos reformatou e abriu margem para a perda de repertório: “As redes sociais usam uma arquitetura de informação que é feita para emburrecer. E aí não importa muito se você é inteligente, se você é bem-informado ou se você está trazendo informação quentíssima. Não faz diferença, porque ali tudo se iguala”, diz. Conforme delegamos o pensamento e a escrita às máquinas, corremos o risco de perder os critérios necessários para julgar a qualidade e a veracidade daquilo que consumimos.
A questão aqui é pensar quanto espaço estamos entregando para a tecnologia. Quanto mais conteúdo automatizado circula pela internet, mais importante se torna saber quem está falando, de onde vem a informação e por que ela chegou até nós. A tecnologia pode fazer cada vez mais coisas por nós. Decidir o que merece nossa atenção ainda deveria ser uma escolha humana.